“Time ganha jogo, e diretoria campeonato”, Por Andrade Neto.

março 14, 2015 | ANDRADE NETO, COLUNAS

O ditado é bem velho, e um ditado antigo transparece principalmente a famosa “voz da experiência”. No futebol, uma equipe é fundamental para se ter bons resultado, porém para se vencer torneios, principalmente aqueles em que se tem  igualdade e rivalidade, se necessita do algo mais para se tirar o impossível de um elenco, para se alcançar objetivos maiores.

 

Para o torcedor do Ceará a conquista do Penta Campeonato em 2015 é algo tão fundamental como o acesso para a série A em 2009, quando ali tínhamos 16 anos sem disputar a divisão principal do Brasil. O penta do Vozão atualmente é algo  nunca visto pela maioria dos torcedores que vivem hoje, uma vez que o último Penta existiu há quase 100 anos. Algumas foram as chances de conquistas desse título em nossa história, em 1978, em 2000 e agora em 2015. Em 1978 não acompanhava o clube para poder emitir uma opinião mais precisa sobre os bastidores do Vozão, mas em 2000 acompanhava, e conheço bem o que foi aquele ano, algo que se assemelha muito há esse que vivemos.

 

Em 2000, o Ceará se tornava, junto com 0 Vitória e Sport como um clube expoente no NE, naquele momento a formação de empresas para gerir o futebol era uma moda no Brasil, e o Ceará naquele ano conquistava um sonho, uma parceria milionária para a época com a empresa ICATU Hartford. Só de cotas de patrocínios, o clube teria mais de 1 milhão de reais por ano a serem gastos, num período de 10 anos. Estabilidade, e dinheiro como se nunca tinha visto no clube. Já o nosso rival, atolado em dívidas não tinha dinheiro para nada, tanto que por incrível que pareça, o Ceará passou a patrocinar o Fortaleza, acreditem! O “Torcedor da Sorte”, produto da ICATU Hartford, patrocinou em 30 mil reais por mês o principal Rival do clube, e aquilo foi o necessário para que eles se restabelecessem.

 

No futebol não há espaços para menosprezos, nem falta de humildade, e a coisa muda como num passe de mágica. O olhar vigilante do dirigente, o grito do comandante “para não se perder a boiada”, e principalmente o foco são coisas necessárias para não se perder uma hegemonia. Em 2000, o erro muitos sabem: Dirigentes “cabaço” na área do futebol, gastos exorbitantes, mas principalmente a perca do foco no futebol foi algo que fez degringolar o clube. Ora amigos, como se admite um clube menosprezar o adversário a ponto de patrociná-lo? Aos poucos via-se o Rival que tinha uma torcida apática, e tímida, crescer em força, e aí já sabemos o final: uma década trágica para o clube.

 

Não vou me ater somente ao Ceará, vou também ao lado de lá para saber como eles subiram. Além do acerto de contas, que esse mesmo Jorge Mota fez, eles em nenhum momento perderam o foco em 2000. Lembro do Silvio Carlos indo a programas de rádio praticamente diariamente chamando os seus torcedores, me recordo também que o presidente em exercício fazia isso como um exercício, no mínimo semanal, em vários programas, foi aí que eles conseguiram virar um quadro que parecia impossível. Já o Ceará, preocupado com seus milhões, e com uma gestão que em pouco se preocupava em agredir o adversário, via aos poucos o espaço da FCF sendo completamente tomado por eles, e todas as arbitragens serem ganhas e decididas pelo Rival. Quem não se recorda do “Caso Gato do Clodoaldo”, algo nunca visto no futebol aconteceu por aqui, e deixamos passar como se nada houvesse acontecido, sem se falar que a briga interna do clube: antigos diretores incomodados com o excesso de benevolência (para não dizer inocência) da gestão na época para com o Rival, em detrimento de um “profissionalismo exagerado” que os dirigentes da Alcântara e Mendes vendiam na época. O resultado sabemos: No fim de 2000, o Fortaleza ultrapassava o milionário Ceará, que agora não tinha somente um título a menos, mas sim um rombo de milhões, e um conselho deliberativo destruído, que demorou 10 anos para levantá-lo novamente.

 

Essa volta ao passado nos serve de aviso para não cometermos os mesmos erros de anos anteriores. Não que hoje tudo seja igual, mas na data atual assisto um cenário próximo daquele que vi em 2000. No nosso Rival sobra motivação, e uma diretoria, que há tudo dá um grito. O que isso serve? Alguns devem dizer:trabalhamos sem fazer barulho que é melhor. Mas isso serve, e muito. Isso demonstra ao torcedor dele, que o clube está atento, que a diretoria está na sintonia do torcedor. E o Ceará o que tem a ver com isso? Muito, a começar quando perdemos o clássico há uma semana, o que vimos de reclamação contra a arbitragem do Sr. Almeida Filho? O que vimos de diretor reclamando da arbitragem que interferiu diretamente no resultado do jogo? Nada, parece que foi um jogo qualquer, e olhe que estamos falando de Almeida Filho, o famosos Almeidinha, que em tempos atrás o seu nome veiculado em Carlos de Alencar Pinto era comparado ao nome do “Capeta”, tamanhas maldades esse senhor já fez ao Ceará, quem se recorda na época do Clodoaldo com seus cai-cai, se é que algum diretor recorda?

 

Porém não vou me ater ao caso Almeidinha, até porque o caso não é isolado. Junto disso, já assistimos pela terceira vez em um período de 18 meses (1 ano e meio) a terceira insurreição de elenco dentro do clube. Em 2013 foi a vez de Mota colocar a boca no trombone na véspera de uma decisão de vaga para a série A, já ano passado, assistimos à absurda perca da vaga mais fácil da série A na história do clube, por problemas na gestão do futebol, e agora, em menos de 1 mês assistimos Dado Cavalcante ir embora do clube mais por insurreição do elenco do que por qualquer outra coisa. Em 1 ano e meio ter três insurreições, isso só não foi crise porque o nosso rival ajudou muito em momentos ruins para amaciar o ego do torcedor do Vozão, só que entendam que a fase ruim deles não é eterna.

 

Hoje o que consigo enxergar é algo muito perigoso e tenebroso em CAP, não que tenha algo de errado lá, mas porque falta o algo a mais no futebol. O que vejo que falta é o famoso “sangue no olho” de alguns dirigentes. Aquele sangue que faz ele acordar pensando em vencer, falta o “frio na barriga”, falta as “unhas roídas”, isso é o que faz o dirigente não dormir e procurar o seu máximo pela vitória. O Ceará quando se é indagado sobre seus problemas reage como um funcionário público que olha ao seu redor e diz: – Está tudo bem, você enxerga algum problema? Aliás digo que realmente o clube não tem problemas: salários em dias, um CT que é um brinco, uma estrutura de dar inveja a qualquer clube do NE, só que isso não vence campeonato. O que ganha títulos, além disso claro, é o “sangue no olho”, é o foco do dirigente a todas as ações do rival, é a atenção aos mínimos detalhes. Será que não é por isso que “batemos na trave” no nosso acesso por dois anos consecutivos? Será que não é por isso que hoje enxergo o perigo eminente na perda do Penta?

 

Fica o aviso: O excesso de profissionalismo tira o brilho do olho, e esse brilho é que faz qualquer profissional ir além do seu limite. Esperamos que essa vontade ainda exista em Porangabuçu, do contrário, já podem entregar as faixas.

 

“Para se ter sucesso, é necessário amar de verdade, e se entregar naquilo que se faz. Caso contrário, levando em conta apenas o lado racional, você simplesmente desiste.” Steve Jobs

 

Andrade Neto

 

 

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